Histórias do Microfone

Decidi inaugurar uma sessão nova no blog. Vou postar histórias dos meus tempos de rádio. Afinal, são seis anos de experiência no veículo que mais sou apaixonado. Em alguns casos, por razões óbvias, vou omitir nomes de colegas e de emissoras.

 

Para começar, vou relatar uma que aconteceu comigo, enquanto repórter da Band, acho que em 2004. Fui enviado para fazer uma matéria sobre um grupo de famílias que havia invadido uma área no Partenon em protesto pela falta de estrutura prometida pela prefeitura para um conjunto habitacional, como saneamento, luz, etc. As famílias ocuparam um terreno, acamparam e começaram a ligar para as emissoras. Fui o primeiro a chegar e logo entrei ao vivo com uma das representantes.

 

Era uma senhora simples que estava em uma barraca com a família. Quando eu comecei a fazer o boletim, ela estava na minha frente e, atrás dela, o motorista da rádio ao lado do carro, comendo balas de goma. Ele gostava de acompanhar o nosso trabalho, sempre deixava o som do carro ligado e depois comentava conosco as informações. Desta vez não foi diferente, pois ele aumentou o volume e ficou do lado de fora, justamente no meu campo de visão.

 

Narrei os fatos no microfone e fiz a pergunta para a senhora, que prontamente respondeu, de forma efusiva.

 

– Senhora, como estava a situação de vocês e das outras famílias no conjunto habitacional?

 

– Olha, moço, a nossa situação é PECUÁRIA! Entendeu?? PECUÁRIA!!

 

Putz! O motorista começou a rir. Uma risada contida, o que foi pior, na verdade, porque não tinha som, mas eu via o cara se contorcendo e fazendo caretas atrás de entrevistada. E para piorar, ele se engasgou com a bala. Ele parecia um boneco de posto, agitando os braços com expressões faciais ridículas e absurdas. E a moça não parava de falar, insistindo que a situação era terrivelmente “pecuária”, numa clara troca pela palavra “precária”.

 

Fiquei imaginando as pessoas morando nas casas e vacas entrando e saindo a toda hora, assistindo TV com as famílias, jantando, etc. Não sei como não caí na gargalhada. Mas lembro que mordia os lábios para não rir e resolvi fechar os olhos, aproveitando o recurso dos óculos escuros.

Uma resposta to “Histórias do Microfone”

  1. “E a moça não parava de falar, insistindo que a situação era terrivelmente “pecuária”, numa clara troca pela palavra “precária”.”

    ainda bem que tu explicou, senão eu nunca ia entender a graça!
    ¬¬

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