A primeira vez dos velhinhos

As pessoas que me conhecem sabem da minha paixão por voar. A sensação de estar lá nas nuvens me encanta, tudo é apaixonante, a começar pelo aeroporto, que é um lugar onde se vê muita coisa. A decolagem dá aquele friozinho na barriga, depois vem a inigualável vista lá de cima durante o vôo, seguido da expectativa do pouso.

Pois bem, fiz essa longa introdução para narrar um fato que presenciei durante o vôo que fiz, no início da tarde, de Porto Alegre para São Paulo, de onde escrevo. Tudo ocorreu normalmente e, inclusive, tive a sorte de ter apenas 70% da capacidade da aeronave preenchida, ou seja, pude acomodar meu 1,85m sozinho na fileira da janela de emergência.

Quando as portas fecharam que eu mudei de lugar. Percebi, então, que um casal de velhinhos embarcou por último. Os dois caminhavam lentamente e sorridentes pelo corredor do avião, admirando cada detalhe da aeronave. “Deve ser a primeira vez deles”, pensei. Bingo! E adivinha onde sentaram? Na minha frente, óbvio, ocupando a fileira que estava vazia. Aiaiai… que medo.

Foi aí que o comandante fez a saudação inicial:

– Boa tarde, senhoras e senhores, sejam todos bem-vindos ao vôo 3294 da TAM com destino a São Paulo, no novíssimo Airbus A320.

“Novíssimo”? Hummm… Será que, além da estréia dos velhinhos era também a premier da aeronave? Também era a minha primeira vez na saída de emergência. Muitas coincidências.

O avião taxiava e o comandante dava as últimas orientações, até que iniciou o filme das demonstrações de emergência, que seriam passadas nas telas presas ao teto a cada três poltronas. Quando o vídeo inicia, a tela, que fica escondida, se estende, descendo e ligando.

O detalhe é que justamente a tela em frente ao casal de idosos desceu no ritmo das outras mas não ligou, ficou sem imagem e se recolheu, voltando a posição de retração original. O casal se olhou e sorriu.

Enquanto as outras já rodavam o vídeo, a mesma tela abriu novamente, não funcionou e voltou a ficar fechada. Aí, o velho não se conteve:

– Rã! – riu, admirado. Uma risada fechada e monossilábica, não o tradicional “hahaha”.

Quando a operação se repetiu pela terceira vez, o velho foi além:

– Rãrã!

E na quarta vez:

– RÃRÃRÃRÃ!! – Num tom de voz mais alto.

Foi aí que ele apontou para a tela e disse à companheira, feliz e conclusivo.

– Essa não funciona! Rãrãrã! O avião tem defeito!

Porra. Tá certo que eu adoro voar, mas é sacanagem falar isso antes da decolagem. E o novíssimo Airbus, hein? Na tentativa de esquecer o episódio, comecei a olhar para outros passageiros. Foi aí que vi um jovem mal-encarado lendo a revista “Magnum”, especializada em armas e munições, com a manchete “Fuzis: os melhores e os devastadores”.

Beleza. Seria um ótimo e tranqüilo vôo.

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