O tardio “progresso” de Capão da Canoa

Desde a minha infância, passei as férias de verão sempre em Capão da Canoa. Quando criança era melhor ainda, pois viajávamos em dezembro e só voltávamos em março. Praticamente, eram três meses vivendo numa casa aconchegante, tranqüila, próximo ao mar. Naqueles idos tempos, eu surfava (muito mal), nadava diariamente no mar(para um dia ser salva-vida) e, de tarde, brincava na piscina da SACC. De noite, montava meu Forte-Apache e fazia confrontos memoráveis. Mas as coisas foram mudando.

Na infância, eu não tinha muitos amigos na mesma praia para poder brincar, meu parceiro era meu irmão. Já na adolescência, iniciou uma interação maior com os jovens da vizinhança. E também, o tempo de permanência ia reduzindo. Quando comecei no rádio, de meses, passei a ir finais de semana (quando tinha folga). Mas eu adorava desopilar naquele clima tranqüilo e relaxante do litoral gaúcho.

Minha casa em Capão da Canoa fica na Zona Nova, mais próximo a Araçá do que do centro da cidade. Era ótimo ir a pé para os bares, visitar os camelôs (e vez que outra, comprar uma porcaria), e caminhar de noite pelas ruas silenciosas, ouvindo o barulho do mar.

Até cinco anos atrás, não era permitido construir prédios a partir da avenida que ficava na esquina da minha casa, garantindo uma paisagem aberta para um morro a oeste, lindo, que pintava um belo pôr-do-sol que eu costumava assistir de camarote, deitado na rede. Porém, a ganância das construtoras aliada à falta de planejamento e consentimento da prefeitura fizeram com que essa medida fosse revogada. Casas estão sendo derrubadas para dar lugar a prédios de até 11 andares.

A vista está mudando completamente. E, já faz tempo que a cidade não suporta o volume de pessoas durante o verão. Capão da Canoa não tem ruas, estacionamento, abastecimento, opções de lazer, supermercados e lanchonetes suficientes para atender uma mudança de 40 mil habitantes para 1 milhão. A infra-estrutura está saturadíssima.

A prefeitura espera construir e vender mais unidades imobiliárias para depois pensar em como acomodar tanta gente. E isso está acontecendo na ex-tranquila Zona Nova. Antes, não havia calçadão a beira-mar construído, com estrutura de bares, chuveiros e banheiros. Agora, com o avanço dos prédios, milagrosamente, as obras começaram.

Capão da Canoa vai implodir. Meu sossego já terminou. Mas, a minha raiva maior é com o poder público, que agora sorri para veranistas de uma parte da cidade que sempre foram abandonados, sem infra-estrutura ou atenção. E o pior que a recente preocupação não é com os antigos, mas sim com os novos.

Interessante que a prefeitura usa “Qualidade de vida o ano inteiro” como slogan. Eu acrescentaria o adjetivo “má” a frente da primeira palavra. E além de tudo, a praia e o mar são horríveis. Uma verdadeira droga.

Em homenagem aos meus sentimentos por Capão da Canoa, posto o vídeo do mestre Alborghetti, um dos pais do jornalismo policial, falando sobre as praias do Paraná. Vale para o litoral gaúcho.

5 Respostas to “O tardio “progresso” de Capão da Canoa”

  1. Franklin Dellano Says:

    Puxa, eu digitei capão no google e vim parar aqui. Confesso que me identifiquei muito com o texto, mas só no início. A superpopulação da nossa querida Capão da Canoa começou há mais de 15 anos, e não há 5 (eu também veraneio na zona nova). Logo depois que montaram os camelôs, aquela área começou a agrupar gente. Daí criaram fliperamas, crepes, cachorros-quentes e, onde tinha apenas o baronda, virou uma Lima e Silva com menos vigilância sanitária.

    Por fim, eu não entendi bem o final, em que tu reclama do aumento da preocupação da prefeitura em relação à infra-estrutura para os novos e antigos moradores. Achei um pouco insensato tu reclamar DO ÚNICO PONTO POSITIVO em meio a este maremoto de adversidades trazidos pela superpopulação.

    Médio texto. Mas foi bom ver a minha tão querida Capão da Canoa lembrada aqui. Talvez até volte um dia a este blog.

  2. andreifonseca Says:

    Oi, Franklin.

    A sua definição de “Lima e Silva, mas com menos vigilância sanitária” é ótima. Genial.

    Com relação a minha reclamação em cima da única coisa boa, bem… como veranista há 26 anos da Zona Nova, passei por poucas e boas. Acho lamentável que, somente agora, a prefeitura tenha começado a tomar cuidados (que não serão suficientes).

    Mas essa é a minha opinião, respeito a sua.

    Volte mais vezes.

  3. Sabe aquela casinha que fiquei com a minha família naquele verão que fomos vizinhos?

    Foi pra xón. Agora estão fazendo um prédio. Te contar heim.

    Sem falar naquela beira de praia que chega 15hs e não tem mais sol, graças à sombra dos prédios de 800 andares da orla.

  4. Terbio Fagundes Says:

    Também “fui” veranista de capão, só que no centro (rua tupirama). O asfalto de capão dura só até a primeira chuva. Fiz que nem o gorvernador do Paraná, fui para Balneário Camboriú.

  5. brunoribas Says:

    Gostei do texto e me identifiquei bastante. porém veraneei a vida inteira em tramandaí. mudei o local para atlantida por motivos “namoradísticos”. mas achei que tramandaí, diferente de capao, teve uma considerável melhora. Claro que encheu de prédios, como a tua cidade, mas trouxe um pessoal mais endinheirado pra tramandaí e algumas ruas ficaram com casas bem bonitas. Só que o verão no litoral gaúcho inteiro está ficando insustentável com relação ao número de pessoas!
    Agora, devo ressaltar que o nosso mar é uma verdadeira droga, se comparado com o mar catarinense, que, na minha opiniao, é o mais bonito do Brasil.

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