Coberturas de funerais

Se tem uma coisa que jornalista odeia é fazer cobertura de funerais. Porra, é um saco. Não existe nada mais constrangedor e irritante do que ficar transmitindo ao vivo de um velório (sempre uma celebridade, é claro), entrevistando pessoas ligadas ao falecido, perguntando o que “dizer nessa hora”, “qual é o sentimento” ou “o que fica de lembrança”.

Além disso, tem os familiares emocionados, no momento máximo de sua dor, que devem ser incomodados por nós, que fazemos perguntas idiotas e esperamos que eles dêem respostas imbecis. Não menos irritantes são os papa-defuntos, pessoas que se julgam influentes e vão ao velório de um ou de outro para aparecer e ter a chance de registrar o seu “pesar” pela passagem de “um amigo muito próximo”.

Nos meus seis anos de reportagem em rádio, o velório mais significativo que eu cobri in loco, sem dúvida, foi o de Leonel de Moura Brizola. A começar pelo momento de sua morte, quando eu estava na aula e fui chamado para comparecer na rádio para ajudar.

No dia seguinte, o corpo viria do Rio de Janeiro. Fui deslocado até o aeroporto para acompanhar o trajeto até o Palácio Piratini, junto com a equipe da TV. Assim que o avião chegou, o caixão foi diretamente colocado em um caminhão do Corpo de Bombeiros e seguiu pela avenida Farrapos, tomada de populares.

No meio do trajeto, eu saí do carro e acabei me perdendo dos colegas na multidão. Resultado: segui o caminhão a pé até o Palácio Piratini. Quando eu era acionado para passar boletins, corria na frente, recuperava fôlego e daí sim entrava no ar.

Ao término de tudo, fui convocado para ir acompanhar o enterro em São Borja. Foram 10 horas de viagem e um trabalho que começou às 6 horas da manhã e foi até às sete da noite. Entrevistei desde deputados federais, governadores e senadores até parentes distantes do líder trabalhista. Um dia conto outras histórias engraçadas sobre esse fato.

O que quero realmente dizer é que cobrir funeral é uma merda, mas não o de Michael Jackson. Pô, foi um baita show na real. As ruas ao redor do Staples Center, em Los Angeles, foram bloqueadas, ingressos sorteados e esgotados.

Grandes artistas foram chamados, um roteiro foi elaborado as pressas e celebridades internacionais também participaram. Soubemos um pouco mais sobre a vida de Michael Jackson, surpresas que faria parte da turnê “This Is It”, entre outras coisas.

Assisti boa parte do “funershow” do rei do pop (digno e merecido) e fiquei com uma sensação de muita conformidade e saudosismo dos participantes para com a passagem do cantor. Talvez sua personalidade tenha permitido que não houvesse um desespero de perda nesse momento. Além do mais, a distância da data da sua morte até o funeral contribui para isso.

Para mim, o momento mais emocionante foi quando a filha do cantor, Paris Jackson, de 11 anos, foi ao microfone e disse, aos prantos e amparada pelos tios, de que “papai sempre o melhor que ela podia ter”. E finalizou dizendo que o amava.

Duro de agüentar foi o pai dele com a cara de gangster de sempre fingindo que tava triste, mas na verdade deveria estar contrariado por ter ficado de fora do testamento. Os irmãos estavam bastante emocionados.

Já pensei muito sobre o meu velório. Gostaria que o clima fosse o mais animado possível, mesmo sendo um momento triste. Sempre quis que as pessoas lembrassem e falassem de mim sorrindo e brincando, nunca tristes. Alguém anota isso, por favor? Eu sei, ainda faltam uns cem anos. Mas não esqueçam disso.

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