Vitrine mórbida

Ao chegar próximo ao Supermercado Nacional da rótula da avenida Nilo Peçanha, no final da tarde de ontem, me deparei com uma movimentação intensa de agentes de trânsito, guincho e carros da Polícia Civil. “Foi um acidente”, pensei. Mas chegando perto do local, as novidades aumentaram.

Assim que vi um carro do DML – Departamento Médico Legal, percebi que a coisa era bem mais séria que a primeira impressão. A curiosidade inerente ao ser humano e a minha formação acadêmica presente no sangue fizeram com que eu fosse conferir o que acontecera.

Lembrei dos tempos de reportagem, pois sempre que havia uma ocorrência desse tipo eu me irritava muito com os curiosos em volta fazendo as mesmas perguntas. Minha resposta era seca e estúpida: “Vai ouvir rádio, velho!”. Por isso, apenas observei.

Havia uma caminhonete e um carro amarelo atravessados na rua em uma área isolada. Peritos e fotógrafos criminalistas examinavam a cena enquanto policiais civis conversavam em grupos. Em seguida, os peritos retiram do carro um corpo de um homem apenas de cuecas com uma perfuração.

Nesse momento, uma aglomeração de pessoas com celulares se fez, todos tentando o melhor ângulo para capitação de imagens. Confesso que não entendi essa curiosidade mórbida do público em fotografar um cadáver. Me chocou, inclusive.

Será que a idéia era chegar em casa, bater a porta, beijar os filhos e dizer mostrando o celular: “Gente, olha só o que o papai viu na rua”. Awesome!

Ou então, sentar a uma mesa de bar com amigos e se orgulhar: “Bah, na hora que o perito vacilou eu estendi o braço e peguei o ângulo incrível. Dá pra ver onde a bala entrou”.

Em seguida, outro cadáver foi retirado pela porta do motorista, com muito sangue espalhado pelo corpo. Obviamente, se tratava de uma ocorrência de grande impacto.

Observei por mais alguns minutos e resolvi fazer as minhas compras. Enquanto caminhava pelo supermercado, ainda refletia sobre o que havia presenciado. Estava chocado pela cena e pela reação das pessoas. Mas queria saber o que se passara. Pelos comentários que ouvi, alguém havia reagido a um ataque.

No momento em que passava as compras pelo caixa, perguntei a moça que as registrava o que havia acontecido. “Um delegado foi seqüestrado e matou os bandidos”, disse ela.

Minha primeira reação foi pensar “Wou! Dois a menos”. Mas depois pensei no trauma que o “sobrevivente estaria passando. Ele terá que conviver com essa situação para sempre. Isso não nos deixa. Mas temos que ser fortes e administrá-la.

Imediatamente lembrei do que houve comigo, quando fui assaltado ao chegar em casa, 13 meses atrás. Não sofri nenhum tipo de violência física, mas sempre que me aproximo do portão recordo dos quatro homens armados me apontando armas e pedindo meu carro.

Isso persegue por muito tempo. Hoje, lido bem. Faço piada e comemoro que os criminosos foram presos pela polícia. Porém, gostaria de não ter sido parte de uma estatística que cresce bastante.

Li, hoje pela manhã, no jornal que foi um agente penitenciário, aproveitando o descuido de seus algozes, que reagiu e atirou e os matou. Ocorreu a três quadras aqui da agência.

4 Respostas to “Vitrine mórbida”

  1. foda, né? mas é como o maynard james keenan escreveu e cantou em “vicarious”, do tool:

    Eye on the TV
    ‘cause tragedy thrills me
    Whatever flavour
    It happens to be like;
    Killed by the husband
    Drowned by the ocean
    Shot by his own son
    She used the poison in his tea
    And kissed him goodbye
    That’s my kind of story
    It’s no fun ‘til someone dies

    (…)
    Cause I need to watch things die
    From a good safe distance

    (…)
    Vicariously I live while the whole world dies
    Much better you than I

    e o som é violentamente afudê. letra na íntegra aqui:
    http://www.azlyrics.com/lyrics/tool/vicarious.html

  2. Estás fazendo previsões???? Escrever sobre isso justo um dia antes da Lu, hein???? Marca uma consulta pra mim aí!!!!!!! Sabe que lido com processos no dia-a-dia e sempre penso: ah, esse foi só um assalto…..No meio de tanta atrocidade, acaba parecendo uma coisa boba….Mas quando acontece com a gente, ou com os nossos, a gente percebe que quer matar o cara!!!!!!!!! Com requintes de crueldade, inclusive…..

  3. Nem sabia que tu tinha sido assaltado há 13 meses atrás.

    Mas, sim, que bom. Dois a menos. E de preferência que esses dois sejam os mesmos que ME sequestraram ali na Nilo, logo que passa a rótula.

  4. Luis Henrique Says:

    Legal o assunto..

    Aproveitando o gancho, hoje a tarde, em uma caminhada, mais ou menos entre o Museu Oscar Niemeyer e aquele estadiozinho que fica ao lado do Gigantinho, bem onde a rua Padre Cacique se divide entre a continuação da mesma a av. Beira Rio, eu vi bem de longe um homem com roupas de mendigo “me filmando” ele estava há uma boa distancia mais a frente e me viu (eu estava dando sopa também, de mochila, tennis Nike e MP3..) parou e ficou me olhando..

    Ele até foi um assaltante amador, se não tivesse dado tanta bandeira eu teria seguido meu caminho rotineiro e teria sido assaltado..

    Nisso, eu que já sou vacinado, deixei de fazer o trajeto de sempre, pela orla do Guaiba, e optei por ir até o meu destino pela av. Beira Rio. Já fui assaltado mais de quatro vezes e sei como é..

    É brabo ter que viver nesse constante clima de tensão.. como diria o Bambam, aqui da rádio Ipanema.. É foda isso ai tchê !!!

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