Archive for the Histórias do Microfone Category

Luis Carlos Alborghetti (2009)

Posted in Comunicação, Histórias do Microfone with tags , , , , on 09/12/2009 by andreifonseca

Neste dia 9 de dezembro, o jornalismo brasileiro perdeu um de seus mestres e ícones. Faleceu Luis Carlos Alborghetti, 64 anos, de câncer do pulmão, na sua residência, em Curitiba, no Paraná.

Alborghetti era um cara fantástico. Ficou conhecido pela sua irreverência, opiniões fortes e por não medir palavras na hora de expressá-las. Apresentou o programa Cadeia Nacional, na rede CNT, em que, com um cacetete na mão, mostrava matérias sobre crimes e pedia “cadeia” aos responsáveis. Um estilo que fez escola, revelando, por exemplo, o apresentador Carlos Massa (o Ratinho), repórter de Alborghetti no início da carreira.

Eu admiro MUITO o Alborghetti. Já postei vídeos dele aqui, sou fã do seu tom áspero e de sua sinceridade. Mesmo aos berros e com palavrões, Alborghetti era um pregador da moral política e social, sendo um revoltado contra a leviandade e flexibilidade das leis criminais brasileiras.

O jornalismo brasileiro fica órfão de um cara que sempre essência, nunca se vendeu para “o sistema”, inclusive preterido em contratos e propostas devido à sua postura. Gostaria de tê-lo conhecido pessoalmente, pois teria sido um prazer ter apertado a mão dele e dizer que sou um grande e ele me influenciou muito.

Alborghetti aliava indignação com humor, sem cair no escracho. Com sinceridade, ele expressava consternação sobre os problemas do dia a dia, com foco maior na segurança pública. E dá-lhe porrada na mesa! Fora a toalha no ombro, que ele usava para secar o suor.

Vai com Deus, Alborghetti. Descanse em paz. Que tenhamos em breve um guerreiro como você para defender o óbvio, constantemente esquecido pelas autoridades.

Minha homenagem se encerra com vídeos dele, alguns dos meus preferidos.

Comida para Batalhão

Posted in Histórias - A vida foi assim, Histórias do Microfone with tags , , , on 15/09/2009 by andreifonseca

Em uma rápida conversa no MSN hoje com uma amiga, a Paula, de Pelotas, lembrei de uma história que aconteceu comigo dias antes da minha formatura. A Paula vai colar grau em Arquitetura e Urbanismo, na UFPEL, e está com dilema sobre os convidados, porque.o espaço é pequeno, a grana (sempre) é curta, e precisa enxugar a lista.

Daí, eu comentei com ela sobre uma história que eu passei em julho de 2004, semanas antes da minha colação de grau. Os convites demoraram para chegar e eu tive que correr para entregar. Tive os mesmos problemas da Paula, tanto que fiz a recepção no dia seguinte à cerimônia.

Na época, era repórter da Bandeirantes e tinha uma série de fontes, as quais eu queria fazer “um agrado”. Na minha lista, tinha desde assessores do governo, até deputados, vereadores e policiais. E foi nesta última categoria que a minha história se desenrola.

Havia um capitão da Brigada Militar que era meu parceiraço, sempre me passava informações “quentes”. Tinha que convidá-lo. Logo, ele foi para a lista fácil, fácil.

Liguei para ele e combinei de entregar o meu convite. Como o cara estava de serviço, tive que ir até o Batalhão onde ele trabalhava.

Cheguei, nos cumprimentamos, conversamos um pouco, fiz a entrega, ele agradeceu. Parecia tudo perfeito até que ele, na maior boa vontade do mundo, me disse:

– Tchê, vou te apresentar para o comandante.

Bah. Apresentar para o comandante. Para um militar, esta é a honra das honras. É como receber um convidado tão ilustre em sua casa que você disponibiliza o seu próprio quarto para que ele pernoite. Ou então, escolhe o melhor vinho da adega, guardado há século e oferece.

E lá fomos nós. Só que o tal comandante, estava palestrando para uns 40 policiais mais ou menos, quando interrompemos. Entramos, fui apresentado, falei rapidamente sobre a festa e capitão veio com essa:

– Como o senhor vê, comandante, o Andrei veio NOS convidar para a formatura dele.

Bah. Gelei. Lembro de pensar: “Putz! Minha mãe vai ter um infarto. Mais um na lista”. E comandante foi além. Com voz imponente, virou-se para o pelotão e sentenciou:

– Pessoal! Atenção! Esse é o jovem repórter Andrei Fonseca, da Bandeirantes. Nosso amigo… parceiro… está, assim como nós, a serviço da comunidade…. e está se formando… e veio até aqui NOS convidar… Não vamos fazer essa desfeita, certo?

– SIM, SENHOR!!! – responderam em coro.

Bah, nessa hora, eu fiz cocô nas calças. Pensei: “MEEEEEEEEERDA!! VOU TER QUE ALUGAR O GIGANTINHO PARA ACOMODAR ESSA GALERA!! VAI TOMAR NO CU!!”.

Rapidamente, tive que usar de grosseria para consertar:

– Er… comandante… heheheh.. pois é… esse convite tem o nome do capitão e da esposa… heheheheh… então… assim ó… eu trago o do senhor em seguida…. eu não sabia que o senhor estava, então… sabe como é…

Para minha sorte e do meu pai, que bancou a festa, não foi ninguém do batalhão. Nem o capitão. Muito menos o comandante, que não recebeu o convite, obviamente. Que pena. Esse cara é gente boa demais.

O estagiário infiltrado

Posted in Histórias do Microfone, O mundo cruel with tags , , , , , , on 18/08/2009 by andreifonseca

Gostaria de dar o crédito desta história, mas temo que minha fonte sofra represálias. E no jornalismo temos uma máxima: quem revela a fonte é água mineral.

O Governo do Estado do Rio Grande do Sul vive momentos turbulentos há um bom tempo. É denúncia em cima de denúncia, crise atrás de crise. Parece que não vai ter fim. Até o MPF entrou na jogada e citou a governadora como ré no processo.

Mas, vamos deixar a politicagem de lado, pois a história é sobre bastidores. Como todos sabem, o Palácio Piratini possui um setor de rádio-escuta e clipagem, nada mais normal para um órgão público. Aliás, é fundamental saber o que é dito pelos meios de comunicação, que são os canais do povo.

Pois bem. Um jovem estudante fora contratado recentemente para trabalhar neste setor. Fez a entrevista, encantou a todos, tinha um discurso firme, conciso.

Recebeu o “sim” do chefe, que avisou que “começaria amanhã, pois acontecia um protesto contra a Governadora Yeda naquele exato momento e as coisas estavam corridas”. Não havia como acompanhá-lo e explicá-lo sobre suas atividades. Assinou contrato e foi liberado.

Ao chegar para trabalhar no dia seguinte, o jovem foi surpreendido pelo seu chefe, puto da vida, com um jornal de grande repercussão na mão. Na manchete, a chamada para o protesto do dia anterior contra o governo.

O estudante começou a suar, disse não entender. Mas daí o chefe apontou a imensa foto que ilustrava a capa, onde mostrava claramente o nosso herói junto aos manifestantes, gritando palavras de ordem e aplaudindo o ato, que era de partidos extremistas e totalmente contrários ao governo.

“Tudo que não precisamos é de um espião”, disse o irritado superior. O jovem teve a demissão mais rápida da história.

Coberturas de funerais

Posted in Histórias do Microfone, Mural with tags , , , , , , , on 07/07/2009 by andreifonseca

Se tem uma coisa que jornalista odeia é fazer cobertura de funerais. Porra, é um saco. Não existe nada mais constrangedor e irritante do que ficar transmitindo ao vivo de um velório (sempre uma celebridade, é claro), entrevistando pessoas ligadas ao falecido, perguntando o que “dizer nessa hora”, “qual é o sentimento” ou “o que fica de lembrança”.

Além disso, tem os familiares emocionados, no momento máximo de sua dor, que devem ser incomodados por nós, que fazemos perguntas idiotas e esperamos que eles dêem respostas imbecis. Não menos irritantes são os papa-defuntos, pessoas que se julgam influentes e vão ao velório de um ou de outro para aparecer e ter a chance de registrar o seu “pesar” pela passagem de “um amigo muito próximo”.

Nos meus seis anos de reportagem em rádio, o velório mais significativo que eu cobri in loco, sem dúvida, foi o de Leonel de Moura Brizola. A começar pelo momento de sua morte, quando eu estava na aula e fui chamado para comparecer na rádio para ajudar.

No dia seguinte, o corpo viria do Rio de Janeiro. Fui deslocado até o aeroporto para acompanhar o trajeto até o Palácio Piratini, junto com a equipe da TV. Assim que o avião chegou, o caixão foi diretamente colocado em um caminhão do Corpo de Bombeiros e seguiu pela avenida Farrapos, tomada de populares.

No meio do trajeto, eu saí do carro e acabei me perdendo dos colegas na multidão. Resultado: segui o caminhão a pé até o Palácio Piratini. Quando eu era acionado para passar boletins, corria na frente, recuperava fôlego e daí sim entrava no ar.

Ao término de tudo, fui convocado para ir acompanhar o enterro em São Borja. Foram 10 horas de viagem e um trabalho que começou às 6 horas da manhã e foi até às sete da noite. Entrevistei desde deputados federais, governadores e senadores até parentes distantes do líder trabalhista. Um dia conto outras histórias engraçadas sobre esse fato.

O que quero realmente dizer é que cobrir funeral é uma merda, mas não o de Michael Jackson. Pô, foi um baita show na real. As ruas ao redor do Staples Center, em Los Angeles, foram bloqueadas, ingressos sorteados e esgotados.

Grandes artistas foram chamados, um roteiro foi elaborado as pressas e celebridades internacionais também participaram. Soubemos um pouco mais sobre a vida de Michael Jackson, surpresas que faria parte da turnê “This Is It”, entre outras coisas.

Assisti boa parte do “funershow” do rei do pop (digno e merecido) e fiquei com uma sensação de muita conformidade e saudosismo dos participantes para com a passagem do cantor. Talvez sua personalidade tenha permitido que não houvesse um desespero de perda nesse momento. Além do mais, a distância da data da sua morte até o funeral contribui para isso.

Para mim, o momento mais emocionante foi quando a filha do cantor, Paris Jackson, de 11 anos, foi ao microfone e disse, aos prantos e amparada pelos tios, de que “papai sempre o melhor que ela podia ter”. E finalizou dizendo que o amava.

Duro de agüentar foi o pai dele com a cara de gangster de sempre fingindo que tava triste, mas na verdade deveria estar contrariado por ter ficado de fora do testamento. Os irmãos estavam bastante emocionados.

Já pensei muito sobre o meu velório. Gostaria que o clima fosse o mais animado possível, mesmo sendo um momento triste. Sempre quis que as pessoas lembrassem e falassem de mim sorrindo e brincando, nunca tristes. Alguém anota isso, por favor? Eu sei, ainda faltam uns cem anos. Mas não esqueçam disso.

O sacerdote mamado

Posted in Histórias do Microfone with tags , , , , , , , on 14/05/2009 by andreifonseca

Lembrei dessa no almoço de quarta-feira com o pessoal da agência.

Quando trabalhava na Bandeirantes, participava de coberturas do dia de Nossa Senhora dos Navegantes, padroeira de Porto Alegre. Odiava aquilo. Sempre era um calor infernal (2 de fevereiro, né?), um sol de lascar, me queimava nos braços e no rosto (mesmo com protetor solar) e sofria com insolação, parecia que ia desmaiar. Um horror.

Pois bem. Numa das oportunidades, teria que acompanhar todas as festividades, inclusive fazendo entradas ao vivo da própria Igreja de Navegantes. E foi nessa atividade que o incrível (mas comigo, possível) aconteceu.

Ao entrar na sala reservada do padre anexa à Igreja, encontrei o sacerdote – um sujeito de meia idade, magro, estatura média, de óculos, cabelos pretos e bem curtos – em uma alegria incomum, além de um vermelhão na pele, especialmente no rosto. Ao me aproximar para entrevistá-lo, percebi um forte cheiro tradicional de quem teve um almoço regado à bebida do deus Baco. A língua roxa comprovou a minha suspeita.

Mesmo com as condições adversas, decidi ir em frente. Antes de entrar no ar, o padre estava mega risonho, contando piadas, exaltando felicidade. Assim que eu comecei o boletim, não é que o santo homem se postou a fazer caretas na minha frente? Mas não eram caretas simples não… eram CA-RE-TAS, sacou? Jim Carey ficaria no chinelo!

Pô, o cara espalmou a mão nas orelhas e balançava os dedos com a língua de fora, abria a boca com as mãos para mostrar a língua, ria de mim se contorcendo todo em silêncio e trambolhava o dedo indicador na língua fazendo blrlrlrlrlrlrlr… enquanto eu, calmamente, narrava ao vivo que estava na Igreja tal, cobrindo a festa de Navegantes, padroeira da capital dos gaúchos, um dia muito importante para os devotos porto-alegrenses, etc, etc.

Acho que eu não ri porque não conseguia acreditar no que estava vendo. Aos meus leitores, peço que tentem imaginar a cena. Um jovem repórter sem paciência começa um boletim e um padre de batina e tudo passa a fazer caretas para desestabilizá-lo. Surreal. Mas não comigo.

Não recordo ao certo o final da história. Mas lembro que no ar foi tudo bem. E também nunca mais ouvi falar do tal padre. Será que entrou no circo?

Histórias do Microfone

Posted in Histórias do Microfone with tags , , , , on 23/03/2009 by andreifonseca

Decidi inaugurar uma sessão nova no blog. Vou postar histórias dos meus tempos de rádio. Afinal, são seis anos de experiência no veículo que mais sou apaixonado. Em alguns casos, por razões óbvias, vou omitir nomes de colegas e de emissoras.

 

Para começar, vou relatar uma que aconteceu comigo, enquanto repórter da Band, acho que em 2004. Fui enviado para fazer uma matéria sobre um grupo de famílias que havia invadido uma área no Partenon em protesto pela falta de estrutura prometida pela prefeitura para um conjunto habitacional, como saneamento, luz, etc. As famílias ocuparam um terreno, acamparam e começaram a ligar para as emissoras. Fui o primeiro a chegar e logo entrei ao vivo com uma das representantes.

 

Era uma senhora simples que estava em uma barraca com a família. Quando eu comecei a fazer o boletim, ela estava na minha frente e, atrás dela, o motorista da rádio ao lado do carro, comendo balas de goma. Ele gostava de acompanhar o nosso trabalho, sempre deixava o som do carro ligado e depois comentava conosco as informações. Desta vez não foi diferente, pois ele aumentou o volume e ficou do lado de fora, justamente no meu campo de visão.

 

Narrei os fatos no microfone e fiz a pergunta para a senhora, que prontamente respondeu, de forma efusiva.

 

– Senhora, como estava a situação de vocês e das outras famílias no conjunto habitacional?

 

– Olha, moço, a nossa situação é PECUÁRIA! Entendeu?? PECUÁRIA!!

 

Putz! O motorista começou a rir. Uma risada contida, o que foi pior, na verdade, porque não tinha som, mas eu via o cara se contorcendo e fazendo caretas atrás de entrevistada. E para piorar, ele se engasgou com a bala. Ele parecia um boneco de posto, agitando os braços com expressões faciais ridículas e absurdas. E a moça não parava de falar, insistindo que a situação era terrivelmente “pecuária”, numa clara troca pela palavra “precária”.

 

Fiquei imaginando as pessoas morando nas casas e vacas entrando e saindo a toda hora, assistindo TV com as famílias, jantando, etc. Não sei como não caí na gargalhada. Mas lembro que mordia os lábios para não rir e resolvi fechar os olhos, aproveitando o recurso dos óculos escuros.